A Falha da Farsa
24.04.2018
26.05.2018

Marcelo Cidade (1979, Brasil) apresenta trabalhos pensados e executados em Lisboa em conjunto com artesãos locais. Tais particularidades levantam questões de interesse para o artista como são a autoria, a apropriação e, bem assim, a corrupção – como a alteração de algo. Em oposição à verdade, a Farsa aparece precisamente como aquilo que é corrompido. Contudo, esses movimentos de apropriação levados a cabo pelo autor movem-se pelas possibilidades de significação das coisas e não pelo o interesse na elaboração do objeto em si. É isso A Falha, ou a abertura. Um espaço para ponderar uma outra situação, onde são expostos estes resíduos sociais – como lhes chama -, apropriações que partem de um lugar e que se reorganizam no espaço expositivo. A própria derivação do cubo branco da galeria em reminiscente oficina mecânica que antes foi, mas não chegando a sê-lo novamente, dá luz sobre essa esfera do espaço-entre, a um pós-espaço.

De uma forma mais abstrata, O Anulador, recuperando códigos da arquitetura moderna adaptada à vida sul-americana, com alusão ao Brise Solei de Le Corbusier, enfatiza a problematização sobre o dentro-e-fora, oferecendo uma dupla visão. O objeto convida à participação do espetador e camufla a identidade de quem o habita. Há uma possível anulação do privado dentro do contexto público. O próprio recurso ao azulejo fortalece esse sentido dual. No caso concreto da arquitetura, em Portugal, embora os azulejos estejam mais conotados com o ornamento dos edifícios, sobretudo os mais antigos, integrando, por essa razão, o espaço público, tomam tendencialmente lugar no contexto privado. O mesmo acontece no Brasil. Assim sendo, existe a intenção clara de sermos colocados no âmbito de uma esfera subvertida. Para isso, é determinante a apropriação que o artista faz de certos símbolos formais de que é expressão Guarda Corpo. O objeto mimetiza o corrimão do bairro da Bouça, no Porto, que aí tem uma presença muito particular, já que em contraste com o branco dos edifícios e no seu desenho próprio revela uma identidade, a assinatura de Álvaro Siza. Gera-se a falsa ilusão, e novamente a resignificação de uma prática. O que seria aparentemente o roubo do objeto desenhado pelo arquiteto, é na verdade a elaboração de um técnico local, por orientação do artista que lhe retira toda a funcionalidade e a leitura determinada pela sua condição anterior. Em Arqueologia do Descaso, a subversão repete-se. Os azulejos do século XVIII comprados na feira da ladra, de forma certamente dúbia, sem algo que confirme a sua validade histórica, são expostos de modo a que a sua estética anulada revele os resíduos do lugar a que pertenceram, confirmando o gesto de tirar, aqui de modo mais evidente do que em Guarda Corpo. É-lhes devolvido o peso histórico, não deixando porém de se ligar ao descaso social relativo ao património histórico e que os levou até às mãos do artista, em benefício de um privado, neste caso, através da compensação pela venda, por parte daquele que protagoniza o gesto ilícito. Este é um caminho para a falha, para a resignificação. A este respeito, A Grande Mesóclises talvez seja a obra mais explícita. Ela refere-se diretamente a uma estratégia gramatical utilizada em alguns discursos políticos, que enevoa o que é dito e confunde a audiência. No painel de azulejos, a explicitação do ato criminoso ganha uma nova significação, neste caso, uma significação com carga histórica e permanente, ao ser exposta desta forma tradicional, a partir do gesto comunicativo da pintura e, assim, distinguindo-se dessa retórica confusa que desvia atenção. Transversalmente a toda a exposição, há ainda esta tentativa, a de expor o que está sujeito a um certo velamento no lugar valorativo da memória coletiva: Tentaremos Não Nos Esquecer é a porta de entrada.

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