Histórias de um Criado-mudo
01.06.2018
28.07.2018

Criado-mudo é hoje, no Brasil, a expressão de um objeto de uso quotidiano, uma peça de mobiliário de quarto, a par de tantas outras que habitualmente compõem esse espaço. Contudo, o substantivo, perfeitamente banalizado pela linguagem e pelo seu uso, sem que cause qualquer estranheza, carrega em si a herança de um tempo em que certos lugares ou funções eram tomados pelo corpo de um homem, forçosamente inerte e calado, forçosamente espectador e testemunha de todas as histórias que, diante de si, viveram. Histórias anuladas na mudez de um ponto de vista único e válido, mas silenciado. É este o peso do mistério, da cultura e da história, dos desvios possíveis na leitura de um determinado acontecimento, e é este o ponto de partida da exposição.

Aqui, Nicolás Robbio (1975, Argentina) força-nos a estabelecer uma relação crítica com a memória partilhada (uma realidade que não nos pertence, que não alcança a plenitude de um contexto ou acontecimento) da qual fazemos uso com uma certa naturalidade através da nomeação, da palavra; e, por outro, a articularmo-nos com vestígios determinados que entrecortam a leitura, e até com situações específicas, nomeadamente com questões da contemporaneidade política brasileira, como é o mediático impeachment da antiga presidente Dilma Rousseff, a que assistimos na projeção. O vídeo mostra os representantes do povo, aqueles que falam em seu nome, mas a uma distância controlada pela via da transmissão mediada e sob as leis de um discurso complexo e codificado, como a própria instalação acentua. Esse poder político que no Brasil foi desviado durante o período moderno para Brasília, uma cidade longínqua e de difícil acesso, uma cidade inventada, quase imaginária, perfeitamente desenhada para ser símbolo de atualidade e de vanguarda, para receber uma governação cada vez mais distante do seu povo, quer física, quer simbolicamente. O lugar que devia dar a voz ao povo tornou-se na verdade um lugar inalcançável diante do qual se ergueram muros altos.

Construído em tijolos muito semelhantes aos cobogó usados na arquitetura do período moderno no Brasil e ícone desse movimento, o muro remete não só para a utopia da época, mas também para essa incapacidade de comunicação entre um lado e o outro. Há uma face vazia, e há a outra, cheia de vida e de quotidianidade dos objetos e dos detalhes que o artista aí coloca, invadindo a utopia estética e o formalismo modernos. São a história de quem olha por detrás do muro, a vida a interferir. E, por isso, novamente, a memória, o peso da história e a ideia de uma repetição eminente. O conjunto de amputações apresentam-se a partir de uma instalação quase religiosa, como se se sacralizasse cada parte do corpo, como a objetos de valor histórico coletivo, da memória de um povo; tal e qual como o criado-mudo que se vai mantendo na língua, ativando – num sentido conceptual – esse legado da escravidão que reserva num objeto de uso banal e quotidiano a relação direta a uma pessoa.

Quase todas as peças da exposição são, assim, elementos reconhecíveis, por corresponderem a uma projeção partilhada da memória. Contudo, o artista coloca no centro da galeria um último objeto que não tem o mesmo nível de reconhecimento que caracteriza os outros, e que reforça de uma forma determinante a percepção da abstração do absurdo que quebra e simultaneamente intensifica a relação entre todas as obras. São um triângulo retângulo e uma série de limões colocados arbitrariamente que aí surgem por duas razões fundamentais: primeiro, pela memória do triângulo, a de uma ordem rigorosa que existe na memória coletiva exatamente como símbolo de um equilíbrio; depois, pelos limões, como códigos da espontaneidade da natureza, do acaso, do acidente, da contaminação pela vida. Se toda a exposição decorre ligada a esta ideia de um passado que se apresenta no presente quase como um equívoco, não só pela via da ignorância inerente ao uso quotidiano da língua, como pela evidência do (ainda hoje) constante velamento de certas situações e de certos assuntos que apenas permitem uma leitura controlada e condicionada, esta peça central é como uma síntese disso.

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