Humor
19.01.2019
09.03.2019

Tomemos, de antemão, estes dados: que esta é uma exposição sobre a luz e que também o humor é algo de líquido; que ambos nos afetam e que, por isso, afetam também a nossa perceção das coisas e da realidade. Se ao humor associamos intuitivamente o valor de um estado de espírito, para os gregos, etimologicamente falando, o conceito remetia para um conjunto de elementos do corpo, que se afetam e alteram, modificando uma certa condição orgânica, a partir de dentro. Condição essa que determina o estado de um temperamento, o nosso comportamento, a nossa predisposição para a realidade e a relação que estabelecemos com ela.

É interessante que Isabel Simões (1981, PT) se abra conscientemente a esta relação, a partir do trabalho com a pintura. Que a luz ofereça às imagens que elabora uma condição específica, também intrínseca, que é transformadora de modo ambivalente e bilateral, na medida em que condiciona fortemente não só a realidade que mostra, mas também a perceção que temos dela. Se nas suas obras reconhecemos certos elementos em ligação com uma certa familiaridade real e concreta, essa presença presta-se, acima de qualquer determinação conceptual ou simbólica, a servir a luz e a trabalhar com ela, no sentido da transformação e da amplificação da forma de uma experiência ou de uma imagem, das disposições e dos humores que potencialmente serão vividos diante dela.

Das quatro pinturas de “Meteorologia”, salta à vista a composição formal que as atravessa, um enquadramento, um lugar comum, mas também um ambiente que se altera de uma para a outra, um estado da luz que afeta os objetos e a arquitetura, e o corpo, comprometendo as leituras; tudo isto sublinhado pela expressão do conjunto, o que a proximidade e sequência das obras põe em evidência. “Eclipse” mostra como a função da luz se sobrepõe na pintura a outras questões mais formais relacionadas com a representação de um certo elemento, neste caso, de uma certa arquitetura. O que é ainda mais evidente em “Contorno do Ar”, onde a desmaterialização do objeto é levada ao extremo, elevada à condição do abstrato e onde a luz é o único poder, a única força de revelação; tal como acontece em “Ecrãs”, estes absolutamente dependentes do feixe luminoso que lhes oferece as elementares sombras e os contornos.

Nesta exposição de Isabel Simões, se existe algo de fundamental, para além da pintura, é a amplitude dos resultados, é o estar tudo em aberto diante do sistema da afetação, e de estas obras existirem com a disposição de promover esse espaço e, bem assim, de trazerem a luz, e à luz os seus conteúdos no âmbito dessa mesma condição de fluidez do corpo que as observa.

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