Drawing Room Lisboa 2023
25.10.2023
29.10.2023

RUI CALÇADA BASTOS
Connecting Wires

Suponhamos uma imagem. Um caminho no bosque delimitado por árvores altas, talvez pinheiros. Mais avançada e muito pequena, uma figura percorre-o, quase a desaparecer. Os seus braços unem-se atrás do torso, junto à lombar. As suas pernas difundem-se no jogo de sombras provocado pelas entradas irregulares de feixes de luz nos ramos elevados. A imagem que o sucede é igual à que o antevê. Sobre o espectro da sua cabeça, uma linha reta chega a si ou de si sai, evadindo-se do bosque e da sua bidimensionalidade original. Do mesmo modo, ligam-se as velas de um barco perante a tensão do vento que as sopra e que faz o objeto mover-se, ou prolonga-se a linha gravitacional de um alpinista, desde a altitude a que se encontra até ao solo de onde iniciou a sua escalada.

Rui Calçada Bastos (Lisboa, 1971) propõe imagens que se desdobram para além da imagem, desenhos que se materializam em esculturas e conversas de bolso. Como amuletos que se guardam ou que se partilham em gesto de proteção e oferenda, carregam em si portais para ambientes alternativos. Neles, os movimentos aparentemente invisíveis da gravidade e da alma parecem revelar-se através dos desenhos a prata e latão. Aproximando-se, por vezes, a imagens iconográficas – onde a possibilidade da existência de poderes místicos e brechas fantásticas para outros espaços se magnetiza – Connecting Wires são viajantes e viagens num tempo espectral, de camadas. Personagens solitárias parecem ausentes do facto de serem observadas, tripulantes de uma ampulheta horizontal. Deambulam e repousam por entre montanhas, igrejas, grutas e espaços desertos, muitos deles referentes a lugares onde a tradição da lenda e da transformação metafísica não lhes é estranha.

O artista cerze atmosferas de estranheza e encanto, onde as diferentes dimensões se tocam e expandem – tanto a nível formal como espiritual. Talvez esta clarividência plástica – da linha que dá corpo ao gesto, do gesto que estende o corpo e do corpo que se transforma – seja evidência da indefinibilidade dos trabalhos da perceção da memória. O postal como correspondência de um momento, a balança como recetora dessa mensagem descalibrada, e o rastro metálico como vestígio de um segredo, gesto ou palavra relembrados na ausência. De certo modo, é como se os planos da temporalidade e espacialidade se separassem e implodissem momentaneamente, tornando possível o caminhar pelas imagens desse hiato hipotético que sossega escondido na aperceção de um sopro ou sensação fantasmas – imagens de energia, matéria e luz.

Eva Mendes

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