Eclipse
13.11.2020
30.12.2020

A primeira exposição individual de António Júlio Duarte (Lisboa, 1965) na Galeria coincide com um momento inédito da história contemporânea que colocou os homens no limbo, na esfera e na atmosfera de um espaço transitório que a instabilidade do tempo parecia anunciar. Embora a exposição não se coloque, de todo, nessa esfera ilustrativa, ela traz para o espaço da galeria algumas situações e também impressões que reativam essa experiência da perturbação que hoje se joga sobre o campo da transitoriedade e que faz sobressair as expressões mais elementares da sobrevivência, do medo e da incerteza – a atualidade nutre, por assim dizer, a leitura de Eclipse.

As nove fotografias, com origem em três territórios distintos – Taipei (Taiwan), Hong Kong (China), Colorado (EUA) – (embora pudéssemos considerar mais do que os apenas três territórios) sugerem um voyeurismo sobre a condição de se estar no mundo: homens, animais, natureza, que aqui se confundem. Há uma luz que se acende sobre o acontecimento, um olhar que vê, mas sem nenhum julgamento, somente encaminhando à contemplação do espectador essa condição natural de habitante e de sobrevivente, daquele que se move – quer por via do ócio, quer por via do medo –, ou daquele que aí está, simplesmente, e em qualquer dos casos, sempre elementarmente sujeito à sua condição primária de habitante da terra. Como se se não pudesse escapar a ela, porque atravessa o mundo, sucede na floresta e também na cidade, no âmbito do primitivo e do civilizado, na esfera pública e na esfera privada.

Em conjunto, as imagens apontam o momento da transformação, esse espaço que se estende entre uma coisa e outra coisa, entre um estado e outro estado, entre um tempo e outro tempo; um momento, que não é um instante, mas um fenómeno passível de ser notado, porque algo se altera por dentro ou em volta, uma variedade de hipóteses que dá corpo a uma ideia ou à própria visão do eclipse.

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