Distorção Inerente II
30.05.2026
31.07.2026

A Distorção pode ser enquadrada de diversas formas – remodelação, transfiguração, interpretação errónea, exageração. Quer a sua classificação envolva mudança de forma, manipulação perceptual ou enviesamento de informação, há sempre uma deriva deslocadora do estado supostamente “verdadeiro” ou “original” da coisa. Em todo o caso, devemos ver a distorção como uma anomalia, uma espécie de evento não normativo? Ou deve ser detectada na estrutura dinâmica subjacente ao modo como as coisas adquirem forma, ou seja, chegam ao ser? A etiqueta de inerente é a própria distorção situada no âmago da identidade de uma coisa: a aparente coerência é mantida por ajuste permanente, e aquilo que é apercebido como uma identidade estável depende de uma constante reconstrucção interna.

Como é óbvio, a nossa própria moldura psicológica opera com base num processo de distorção semelhante, seja ele a memória, a percepção, ou o si [self]. Isto aplica-se não só aos casos extremos da confabulação, ilusão ou dissociação. O facto é que a realidade não é encontrada de modo directo ou não-mediado, mas sim através das camadas moduladoras da recordação, projecção, associação, expectativa. Tanto a estabilidade psicológica como a coerência percepcionada do mundo dependem, paradoxalmente, de actos de selecção, edição, omissão, reconstrucção.

Procurar uma verdade absoluta sobre – ou mesmo uma representação relativamente factual de – uma coisa torna-se, por isso, inútil. Assim, nada há de “verdadeiro” – natural, estável ou fixo – na arte, à excepção da sua qualidade especificadora enquanto persistentemente mutante, necessariamente ambígua e com aptidão para deslocar o sentido. Os objectos na exposição indicam como esta deslocação ocorre num terreno duplo: tanto externamente, na percepção do observador, como internamente, através das complexas relações no seio das próprias obras. À medida que os sistemas de ordem (do sujeito perceptual; da obra de arte) são subtilmente minados a partir de dentro, o sentido nunca se estabelece completamente, nem a forma se conforma inteiramente à intenção que a produziu. Graças à exposição à percepção e ao tempo – as duas fontes de distorção – entram em deriva, revelando, à vez, uma manifestação dispersa, desordenada ou por vezes meramente dúbia dos processos de devir e de ser.

A natureza inevitável, pré-integrada e contínua da distorção também salienta a dimensão entrópica da realidade, na qual toda a mudança é irreversível. Na física, a equação que denota entropia é assimétrica, indicando que o tempo é unidirecional e o regresso a (ou a recuperação de) qualquer estado anterior é impossível. A distorção inerente, aliada à irreversibilidade, significa que, em última análise, não há forma de voltar atrás.

Maša Tomšič

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