A gravidade e a graça
19.03.2022
30.04.2022

O pintor “oferece o seu corpo”, diz Valéry. E, com efeito, não se vê como poderia um espírito pintar [1].

 Em A gravidade e a graça, nome homólogo ao ensaio de 1952 de Simone Weil [2], Isabel Simões convoca um espaço de suspensão inerente à qualidade inata de um processo de queda, refletindo sobre a sua condição estética e emocional enquanto momento uno – irrepetível.

Modelada à imagem de uma arena de ensaios, a galeria recebe um conjunto de seis obras da mesma dimensão dos tatamis [3] dispostos na superfície do chão – que serão, em três momentos distintos do tempo da exposição, o campo performático do exercício de ukemis [4] de aikido partilhados pela artista e pelo seu professor.

Fortemente influenciada por esta prática e pela proprioceção possível do Ki [5], Simões evoca o treino físico perante um estado de harmonização com o espaço – habitado e envolvente – tomando como constante transversal o questionamento sensorial entre a relação da superfície caminhada e o tempo da ação enquanto enaltecedor de vislumbres em momentos de suspensão e rebatamento. Nas palavras de Steve Paxton, a velocidade crescente de um objeto em queda deve estar codificada nos nossos genes. Mesmo quando somos nós esse objeto em queda [6] .

Mimetizando o movimento sobre o eixo céu-terra introduzido pela gravidade constante na ação corporal, as pinturas e o tatami de junco tecido pela artista surgem também em dois planos de existência – erguendo-se do campo horizontal (enquanto potenciador de um acolhimento físico) para o vertical – (re)posicionando-se nas paredes e renovando a sua relação com o espetador.

Dotadas de uma horizontalidade conflituada com o desequilíbrio das linhas de profundidade, as pinturas apresentadas, em tons pastéis esverdeados e lilazes de água, aproximam-se do dispositivo presente no espaço e da ação nele decorrente, na medida em que concretizam uma referência clara à esteira de junco tradicional japonesa e à aceitação da lei gravitacional desse exercício pelo meio das atividades da alma, em segundo plano. Do mesmo modo, a artista coloca o espetador perante uma janela aberta para os campos de arroz onde o próprio material que tece as linhas do tatami cresce, recordando a essência inerente a essa matéria – também ela viva enquanto corpo aparentemente sem peso – ascendendo verticalmente em relação ao solo que a sustém. Ainda, numa segunda sala adjacente à arena da exposição, encontramos a continuação da série de desenho Invólucros, onde composições de sombras e luz revelam o repousar de hakamas [7] despidos sobre seres ausentes.

A graça, evocada assumidamente no nome da exposição, surge naturalmente no seguimento da obra da artista que, já na sua primeira presença na galeria em 2019, havia trabalhado a luz enquanto principal matéria plástica – modelada, dissolvida e quase líquida na sua representação. O pathos [8] que a acompanhaconduz-nos à perceção da sua forma íntima – até mesmo estésica – desvinculada do seu exterior. Do mesmo modo, problematiza a relação entre a sua ideia e forma, concretizando a sua condição de união estética entre o racional e o místico [9] (recordemos a confluência entre os eixos céu-terra, entre a consciência sensorial do sol que nasce e racional da terra que gira [10]). Enquanto ocupação consequente do vazio que existe entre qualquer binómio da realidade metafísica, a graça de Isabel Simões é sustentada pela gravidade que rege os corpos que negoceia, num leve limbo simultaneamente momentâneo – numa instância material – e eterno – numa concretização estética.

Poderemos dizer que as suas pinturas são o culminar de um despertar de ecos, resultantes dos instantes de transição e propostos pela influência da luz, da graça e da sua consciência corporal, análogos à evidência de um vazio desmesurado perante o mundo – mas mesmo isso não se aproxima da qualidade etérea que simbolizam. Resultando de um processo determinado pelo movimento descendente da gravidade, do movimento ascendente da graça e do movimento descendente da graça em segunda potência [11], elas são aquilo que nos é possível ver no momento único de uma cedência física – são a imagem fugaz de um corpo em queda, de uma fragilidade materializada – elegante na sua intimidade final. A compleição física está nelas presente pela imersão interpessoal na circunstância libertacional retratada, propondo ao próprio olhar do espetador uma deslocação perante a sua observação, intersetando perspetivas, profundidades e transparências evanescentes – transferindo a vertigem inerente à pintura para o corpo que a contempla.

É difícil encontrar palavras para falar sobre os sentimentos da gravidade… [12]

 

Eva Mendes

 

[1] Merleau-Ponty, O olho e o espírito, Vega, 2002.
[2] Simone Weil, Gravity and Grace. Routledge and Kegan Paul, 1963.
[3] Tatami é um tipo de esteira japonesa utilizada para forrar o chão, tipicamente tecida em junco.
[4] Ukemis, é o termo pelo qual se designam as técnicas das artes marciais japonesas que têm, por escopo, estudar meios de o praticante controlar a forma de queda, para, quando atingir o solo, sair-se numa posição ainda favorável.
[5] Ki, como percecionado por Steve Paxton, parece ser um conceito que se refere tanto à qualidade quanto ao potencial das conexões. Aplicado aos nossos corpos, trata-se do relacionamento entre as partes e, em seguida, flui para as relações com o meio ambiente. Mas principalmente é uma forma de prática, com a sensação de nos conectarmos facilmente com o nosso próprio peso.  Gravity, Contredanse Editions, 2018.
[6] Steve Paxton, Gravity, Contredanse Editions, 2018.
[7] Hakama é um tipo de vestimenta tradicional japonesa. Cobre a parte inferior do corpo e assemelha-se a uma calça larga.
[8] Pathos enquanto condição para a existência, no sentido desenvolvido por Kierkegaard.
[9] Thorsten Botz-Bornstein, Aesthetics and Mysticism: Plotinus, Tarkovsky and the Question of ‘Grace’, Md, 2008.
[10] Steve Paxton, Gravity, Contredanse Editions, 2018.
[11] Simone Weil, Gravity and Grace. Routledge and Kegan Paul, 1963.
[12] Steve Paxton, Gravity, Contredanse Editions, 2018.

 

 

 

  • Isabel Simões
TOPO