Viver e morrer pela boca
20.05.2023
29.07.2023

Que coisa é essa que nos atravessa, que sacode o corpo e vira a cabeça? Que coisa é essa que nos mobiliza, que nos põe em movimento, que dá corda e faz de nós peões? Que coisa é essa que puxa, empurra, dá liga e desliga, que atrai um corpo ao outro, que junta no limite e que solta de repente, desmonta e desmancha, minguando o que antes era paixão? Um peixe que é atraído pelo brilho do anzol, uma boca que abre com apetite no talo, a antena da epiderme que responde à chegada do toque…  É telepatia, fome, tesão, carinho e despedida. Que coisa é essa que pode ser certeza, dúvida e sugestão? Que inflama e é erupção, desejo que irrompe, vontade de estar junto e encobrir-se com a carcaça alheia ou pura implosão: retirada certeira, pedra que se torna pó, como quem diz adeus e nunca mais volta.

Em Viver e morrer pela boca, a sua primeira exposição individual fora do Brasil, Luana Vitra apresenta uma série de trabalhos inéditos que resultam de suas principais linhas de pesquisa nos últimos anos. Interessada sobretudo nas relações entre as qualidades físicas e as aspirações espirituais da matéria, a artista exercita a sua própria subjetividade a partir das implicações dos minerais, bem como devolve aos minerais os afetos que percorrem o seu corpo. É nesse jogo de mão dupla que vão surgindo arranjos inauditos, resoluções inventivas para os infinitos modos das coisas se relacionarem no mundo, conferindo novos sentidos e traçando outras rotas possíveis para elementos conhecidos.

A artista opera no limite entre a escultura e o desenho, entre a literalidade e a abstração, entre o rigor formal e a autonomia da poesia, entre a intuição e o cálculo. Ao usar materiais comuns — que vão de ferramentas e elementos de construção civil a resíduos encontrados — de modo sui generis, o seu trabalho enfatiza os efeitos do tempo, amplia noções espaciais, provoca a perceção sobre a nossa própria condição, e questiona a relação que estabelecemos com as paisagens à nossa volta. A partir da escuta sensível e do manejo hábil desses elementos matéricos, Luana Vitra estuda e experimenta as dinâmicas de corporificação no espaço, investigando como dois polos se aproximam, se apaixonam, se enlaçam, marcam as nossas retinas e memórias, e também como transmutam, ganham novos rumos e desaparecem da vista, ou do nosso campo mental.

Nas suas composições, o ferro é pele, o cobre é amor e o chumbo é gravidade. São os mesmos fatores para diferentes equações. Elementos que servem como matéria dura e como metáfora. Por meio de encaixes, costuras, soldas, pressões e cabeamentos, esses desenhos coreografam aparições e aproximações, mas também dissoluções e contrastes, fazendo pensar sobre as relações entre processos geológicos e fluxos emocionais, entre os elementos orgânicos e os sentimentos e as sensações. Podemos percebê-los como nonsites, sínteses dos grandes campos geográficos e psicoemocionais dos quais esses materiais foram extraídos, isto é: representações abstratas de outros macroconjuntos dos quais outrora fizeram parte. Ou como poesia concreta levada às últimas consequências: um modo de compor com versos, pensando em métrica, rima e ritmo… No lugar das palavras, no entanto, vão logo as pedras, placas, tubos, sargentos, fios e ganchos.

Composto por gestos singulares, esses diagramas apontam para noções ambientais ampliadas, que escapam à falsa dicotomia que opõe a cultura à natureza. Em sentido contrário, falam de uma interconectividade ecológica total e dos incontáveis jogos biológicos planetários; imaginam a possibilidade de uma carne mineral, capaz de nos fazer reprogramar a nossa densidade, os nossos imãs e cadências, os nossos movimentos e inércias. Entre marcações de peso e leveza, de soltura e sustentação, vamos encontrando por analogia o que é ponto de contato e o que é separação, o que nos aterra e o que nos faz flutuar. São deixas para aprendermos a tirar proveito da vontade de integrar-se à realidade material. Ou seja, do ímpeto de viver. E saber lidar com o desejo de desintegrar-se de vez, de fugir no desaparecimento da forma. Ou seja, com a hora de morrer.

Germano Dushá

 

 

  • Luana Vitra
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