Equivalência e desequilíbrio
12.09.2020
07.11.2020

“The perceived neutrality of Minimalist objects might also be explained, however, by the fact that the qualities or values they exemplify – unfeelingness and a will to control or dominate – are transparent by virtue of their very ubiquity. With closer scrutiny, in short, the blank face of Minimalism may come into focus as the face of capital, the face of authority, the face of the father.”
Anna C. Chave, Minimalism and the Rhetoric of Power, em Arts Magazine, vol. 64, no. 5, Janeiro 1990

 

Equivalência e desequilíbrio é a terceira exposição de Marcelo Cidade (São Paulo, Brasil, 1979) na galeria. Nela apresenta-se uma única série de esculturas que combinam elementos de arquitetura hostil com referências à série Equivalents (1966), do minimalista Carl Andre. O diálogo entre os dois trabalhos estabelece-se, não apenas através da expressividade formal das esculturas que compõem as séries, mas também pelo modelo expositivo que adotam.

A série de Andre é composta por 8 esculturas, com 120 tijolos de cimento, cada uma. Embora com formatos diferentes entre si, elas partilham o mesmo peso, o mesmo volume e a mesma altura. A natureza formal desses objetos, somada à organização expositiva proposta pelo artista, condiciona a experiência para além da visão, participando na própria constituição do espaço, interpelando o espectador e condicionando a sua relação com o lugar.

Na série de Cidade, as peças constituem-se de módulos retangulares de cimento, semelhantes aos volumes de Andre, mas agora cravejados de pedras pontiagudas que cobrem toda a superfície das obras, conferindo-lhes um tom mais áspero e agressivo – menos equilibrado -, fazendo, assim, uma alusão aos objetos de design urbano utilizados para impedir a ocupação de certos lugares. Esses objetos são cada vez mais recorrentes nos grandes centros urbanos, sobretudo nos mais populosos, como é o caso de São Paulo, onde Cidade vive. Os lugares agora “proibidos” são, na sua origem e por definição, lugares públicos, pelo que deveriam estar à disposição de qualquer cidadão. No entanto, hoje assistimos à sua reconfiguração por via do uso de pedras, grades, rampas ou metais pontiagudos, que os vedam ao público sob a bandeira da “manutenção da ordem”, movida pela expectativa da erradicação dos comportamentos sociais “mais desviantes”. A propósito deste condicionamento, Cidade prolonga o diálogo com Andre e provoca também ele o condicionamento do espaço da galeria, interpelando o espectador desde a entrada e impondo desvios significativos aos movimentos dentro do espaço.

É ainda de referir que, ao associar a estética da hostilidade urbana ao seu sistema serial de esculturas, Cidade procura a neutralização do discurso autoritário, de raíz capitalista, manifesto nos códigos sugeridos pelas suas esculturas, ao mesmo tempo que, ao articulá-los com os conceitos e os aspectos minimalistas das obras, soma à leitura questões políticas, sociais e emocionais que pautam hoje a nossa vida, redirecionando a nossa atenção sobre elas.

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