Words don’t come easy
14.05.2022
23.07.2022

A word is only a skin,
A thin film of human lots,
And any line in your poem
Can sharpen the knife of your fate [1].

O retorno é necessário, é o caminho eterno, sem fim. Tudo o que acontece, acontece devido a um ponto ou linha invisível desenhado no passado – ele é, assim, o único tempo presente. O ano é 1994, a obra 9 dias 140 km. Rui Calçada Bastos (Lisboa, 1971) apresenta um diapositivo das montanhas do Tibete selado dentro de um envelope de papel vegetal, sobreposto a uma caixa de luz na parede de um antigo armazém da zona portuária de Lisboa. É a primeira vez que esta imagem retangular e de extremidades rebatidas pinaculares surge no seu trabalho, decidindo inconscientemente um mote que ficaria para sempre presente na sua obra. Um novo encontro sucede-se em 1999, no vídeo Rendez-vous, onde uma carta desliza por debaixo de uma porta, e uma figura anónima a recebe, apenas para descobrir o seu interior vazio. Durante as décadas seguintes, o motivo foi subtilmente incorporado em obras variadas, surgindo em pintura (na série Correspondências com…), em vídeo (na instalação Return to Sender) e em escultura (Moi et Toi – Ne pas séparer les mots d’une syllabe). Poderemos bem intuir, como num interno e constante leitmotiv, o momento-chave desta memória – tanto pessoal quanto materializada – se regressarmos àquela que foi a missiva de um mestre – Quando somos apenas envelope vazio o fazer é sem vértice – como o caminho da água. Pensem nisso [2].

Words don’t come easy marca a terceira exposição individual de Rui Calçada Bastos na galeria e, compassada a partir de um gesto profundamente intimista e reflexivo, assinala também aquele que é o momento de reunião culminante da ideia de envelope e de correspondência no trabalho do artista – seja este o objeto em si ou apenas a sua sugestão. A ausência de respostas espelha-se no próprio autor e a hesitação inerente àquele que procura está evidente no limbo lumínico da exposição, bem como na qualidade etérea, quase levitacional, que algumas das obras apresentam. A fim de uma tentativa de descodificação desta presença no seu imaginário, é clara a busca de uma verdade que coincida com a génese deste fantasma cuja qualidade da aura atravessa a instalação e a escultura do artista – que simultaneamente se mostra e se oculta de si mesma. Este desvelamento e velamento, linguagem e silêncio, simbolizam intrinsecamente a evidência de vida e de morte – a experienciação de uma mensagem cujo conteúdo se ilumina na clareira – o desocultar da verdade aparentemente selada [3].

Comecemos por abordar cada obra individualmente, na humilde esperança de conseguirmos delinear o trajeto sensível que determina esta exposição. Love letter, love letter, go tell her, go tell her, refrão homónimo de Love Letter de Nick Cave, apresenta-nos a transparência de cinco envelopes que nascem de um reflexo possível entre um espelho e uma luz. Na verdade, poderemos dizer que se trata apenas de um envelope, um segredo materializado em cinco momentos do seu movimento mapeado em meia-lua, ora em declínio, ora em ascensão, aqui possivelmente enquanto ponteiro de um relógio, preso num loop de nitidez temporal. Esta clareza, cujo despertar metafísico não garante senão uma certeza no seu encontro, ilumina vagarosamente as restantes periferias da galeria.

Somos então guiados para Heavy Weightlessness, uma escultura que introduz a linguagem na exposição. Os versos Still is the unspoken word / the word unheard [4] lêem-se espelhados no interior do envelope que repousa levemente sobre uma antiga balança de correio. Inspiradas por Ash Wednesday de T.S. Eliot, estas palavras antecedem a conclusão do excerto, que perfaz Where shall the word be found, where shall the word / Resound? Not here, there is not enough silence [5]. Ao refletir sobre o peso (material) da palavra enquanto momento (espiritual) decisivo, o artista convoca a condição háptica da poética de um gesto em esquecimento – até mesmo suprimido. Relembrando um autor clássico, spoken words are the signs of the soul’s experiences, and written words are the sign of spoken words [6].

Pontuando duas extremidades desta intemporal sala de escrita, encontram-se posicionadas duas esculturas cujas bases nascem de antigas mesas de caixeiro-viajante, utilizadas amiúde enquanto bases portáteis para o redigir de uma correspondência. Numa delas, North, um envelope entreaberto encontra-se suspenso, atravessado pela verticalidade de uma bússola de pé que aponta diretamente para o espetador que a contempla de frente. Retornando à sua perpétua cadeia de perspetivas auto-referenciais (que são tanto de si como do olhar de quem confronta a obra) o artista ergue, em instância última, um dispositivo de norte, cuja direção é tanto diferente – variando consoante a sua posição – quanto permanente – indicando sempre quem se encontra à sua frente. Existirá possivelmente, neste enigma mascarado de certeza, uma relação imediata com a segunda obra originária destas mesas móveis, Bullet Point que, à distância cintilando uma pequena, ofuscante luz semelhante à de um farol na escuridão da noite em mar, reflete o rosto do espetador aquando da aproximação da superfície que a emana – um espelho com contornos de uma carta, estilhaçada e, contudo, reluzente. Curiosamente encarando a direção do anterior norte evocado, ambas contém a sua decifração no momento (imagem) de reflexão – o bullet point é então anunciado – There is a crack, a crack in everything / That’s how the light gets in [7].

Existe, ainda, um último instante neste quarto secreto de mensagens e luzes, a declaração final de um ato de cumplicidade e união. Quatro fotografias registam um gesto imutável, o selar de uma carta no interior da parede da galeria. Dentro dela, uma mensagem – There are no walls between us. O artista reclama, assim, a vulnerabilidade decisiva na relação entre o artista e a obra, tanto quanto entre o artista e o espetador. Reiterando a permanência da honestidade de ideias, das certezas inabaláveis – ou, poderíamos ainda dizer, do vértice em que nos encontramos – esta exposição concede-nos apenas um post scriptum: estamos selados no silêncio, o elo invisível que nos une – e nada mais.

I hold this letter in my hand
A plea, a petition, a kind of prayer
I hope it does as I have planned… [8]

Eva Mendes

 

[1] Tarkovsky, Arseny, The Word, I Burned at the Feast: Selected poems of Arseny Tarkovsky, Cleveland State University Poetry Center, 2015
[2] Morais, Pedro, missiva entregue aos alunos do At.(re) – Atelier livre
[3] Heidegger, Martin, A Origem da Obra de Arte, Edições 70, 2020
[4] Eliot, T.S., Ash Wednesday, T.S. Eliot Collected Poems 1909-1962, Faber and Faber, 1963
[5] Ibidem.
[6] Aristóteles, On Interpretation, Marquette University Press, 1962
[7] Cohen, Leonard, Anthem, Columbia Records, 1992
[8] Cave, Nick, Love Letter, Nick Cave The Complete Lyrics 1978-2013, Penguin Books, 2013

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