One Second Plan
13.01.2024
16.03.2024

Em parte, poderíamos dizer que a própria natureza da pintura pressupõe imagens às quais o acesso parece ser sempre concedido numa espécie de contrato a meio termo — consente-se a perceção da imagem final na aceitação, porém, da ausência da imagem que a antevê. Talvez seja, na verdade, uma métrica negociada entre a reação do espaço em branco e a sobreposição de camadas que, mais ou menos subtilmente, desencadeiam a presença de diferentes planos dentro de um espaço regido e limitado por arestas tangíveis onde, de resto, toda a composição visual se principia a desenvolver.  One Second Plan, a primeira exposição de Teresa Murta (Lisboa, 1993) na Galeria BRUNO MÚRIAS, desmonta-se assim como um exercício ensaístico relativo à própria disciplina da pintura que, enquanto ensaio, não deseja procurar e filtrar o eterno do transitório mais do que tornar o transitório eterno e o particular transparente a categorias universais [1] — naturalmente independente dos conceitos de um princípio primeiro e de um fim último.

Sucedem-se, nos trabalhos — que variam em formatos de grande e pequena escala —, características formais que viabilizam a aparição de uma energia pictórica simultaneamente fugaz e lânguida, desdobrando as imagens entrelaçadas em duplos significados e recantos escondidos em sínteses puras de abstrações e divagações cromáticas, volumétricas e alegóricas, como aliás o título da exposição indica. Um segundo plano — de ação, de composição, de montagem —, ora o momento insone de um plano de um segundo. Os motivos — chamemos às aparentes figuras, acontecimentos, paisagens — surgem irrequietos na sua condição estática, abismados à vertigem de uma resolução que não se conclui — um sono nunca profundo, um bocejo que não sai, um alongamento sem alívio —, como se o desconforto fosse uma impermanência inevitável cujos contornos não conseguimos agarrar.  A apreensão de um gesto é rapidamente invadida por outro movimento, de alguma forma impedindo o encerrar dessa imagem e convocando uma nova trajetória a esse mesmo corpo, escala, detalhe, que atravessado por um outro espetro, permanece em suspensão, ileso. Irradiando vestígios do seu passar, as imagens abrem-se em imagens, brotam em eco a cada limite que coincide com o nascimento de um outro, cessando apenas no encontro com um ponto de fuga que se dissipa na profundidade simulada por luminâncias e perspetivas escusas ao olhar.

Abstraídos de uma tentação à decifração, poderíamos dizer que estas pinturas são, apesar da sua acribia e distinção, objetos de leitura inefável. Se, por um lado, permitem pressentir qual o peso relativo da intenção, enunciada e traduzida por todas as imagens da memória, e o peso do desejo, desprendido e mobilizado pela sensibilidade; por outro anulam e descontextualizam qualquer rasto de identificação minimamente primária no que diz respeito a Ideias e conceitos que existem, necessariamente, na medida em que são inatos. Portanto, não lhes escapam e delas não se encontram ausentes. As imagens estão lá, em transmutação e movimento, regidas pela força da composição, do desenho e da complexa formalidade que contêm em si e no seu âmago pictórico. O recurso à escala contrastante entre si determina por si só a verificação de um desequilíbrio que sabemos perscrutar intuitivamente nas ilações de um primeiro encontro ao interior da pintura, quase como se a ele já tivéssemos acedido antes de chegar a este corpo (o da pintura).

Os trabalhos erguem-se em torno da sala como vitrais, portais leitosos, mas de uma rigorosa acuidade visual. A pintura, como o ensaio, unida ao despojamento da expetativa, à forma pura, ao quantum de ser perante o enigma irrestrito da imagem, como da palavra.  Como ele, atribui dignidade ontológica ao resultado da abstração, ao conceito invariável no tempo, por oposição ao individual nele subsumido.

Eva Mendes

Um nocturno

O céu está toldado
Com uma nuvem espessa, uma textura Pesada, sem cor, pálida, da Lua
Que através desse véu é indistinta,
Um círculo franzido, carregado,
De luz frouxa, sem sombra de pedra, árvore, Torre ou planta que axadreze o chão.
Ao longe um brilho doce e instantâneo Assusta o pensativo viandante
Sozinho no seu curso, de olhos postos
Na terra; se os levanta — as nuvens quebram-se Em duas — sobre a cerviz ele observa
A clara Lua, a auréola do páramo.
Ela navega a abóbada azul-escura,
E um séquito de estrelas, diminutas, Afiadas, brilhantes, no abismo negro Passam com ela: quão velozes vão,
Mas não se extinguem! — o vento na árvore
E elas silenciosas — vão ainda
Lá longe, imensuráveis; e a abóbada,
Que as nuvens brancas formam, grandes nuvens, Mais cava a insondável profundeza. Enfim, a Visão cessa; e a mente,
Que o prazer que sentiu não perturbou, Que gentilmente se acha em funda calma,
É deixada a pensar na cena grave.

William Wordsworth (1798)

[1] Como desenvolvido por Theodor W. Adorno em “Notas da literatura I: O Ensaio como Forma”, Editora 34, 2003.
[2] W. Adorno, Theodor, in “Notas da literatura I: O Ensaio como Forma”, Editora 34, 2003, p.25.

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