Realismo do Sul
18.11.2023
06.01.2024

Provide the place:
Is man able to penetrate the materials he organized into hard shape between one man and another, between what is here and what is there, between this and the following moment? Is he able to find the right place for the right occasion? Is he permitted to tarry? [1]

Basta que se leia o título da exposição repetidamente para que consideremos que Realismo do Sul é, para começar, uma espécie de palíndromo imperfeito. Realismo do Sul, Sul Realismo, Su(l)realismo do Sul. Primeiramente, trata-se da referência a um movimento sucedâneo de um romantismo exacerbado até meados do século XIX e antecessor de um surrealismo profundamente subjetivo e transcendente perante a compreensão racional. Por sua vez, enquanto reação a uma época caracterizada pelas mudanças da república e do abolicionismo, o realismo brasileiro destaca-se pelo seu feroz objetivismo e denúncia social a uma classe dominante movida pela alegada hipocrisia e burguesismo. Ora, o que nesta exposição – que é a terceira do artista na Galeria BRUNO MÚRIAS – se torna evidente, é precisamente a abertura de uma reflexão conceptual e formal perante o espaço-entre que emerge dentro deste meandro de movimentos artísticos do início do século XIX, em contraponto com as manifestações contemporâneas desde os anos 50 do século passado. Contudo, a abstração estética frequente no trabalho de Marcelo Cidade (São Paulo, 1979), bem como a sua consistente voz sociopolítica, relembram-nos que toda a objetividade, devidamente verificada, desmente o primeiro contacto com o objeto [2]. Será então sobre esta premissa que nos permitiremos a apresentar a exposição que, concomitantemente às suas projeções perante os fenómenos da História da Arte, se manifesta evidentemente em relação à situação de um Brasil atual – bem como um generalizado Sul Global –, fortemente marcado por polaridades e irregularidades sociais e económicas extremas, às quais retomaremos.

Consideremos a relação entre o país de origem do artista e o país que recebe a exposição. O primeiro, considerado pela esfera ocidental como um país em desenvolvimento, tendo sido abandonado apenas recentemente o termo país de terceiro mundo, e sendo regularmente incluído na extensão do que, geopoliticamente, se reconhece como Sul Global – uma espécie de prótese do primeiro termo e que habitualmente se refere aos Estados cuja história atribulada pelo colonialismo e neocolonialismo afetou o crescimento de uma estrutura social e económica sólida a longo prazo. O segundo, considerado pelos demais enquanto país desenvolvido, objetivamente localizado no hemisfério Norte e, portanto, Norte Global; e ainda assim visto culturalmente como um país do Sul por aqueles que frequentemente se designam como países escandinavos. Perante estas construções sociais, digam-se mais abstratas para uns do que para outros, surgem dúvidas – ou melhor, a ausência de respostas – que procuram a legitimidade protocolar da origem dos termos, nomeadamente no que respeita à heterogeneidade dos países que arbitrariamente se aglomeram em ambos os lados da moeda. Poderemos então admirar-nos da inexistência de um espaço que resida entre si, algo de onde a sobreposição Norte-Sul origine uma nova heterotipia – essencial, a nível social, urgente, a nível afetivo.

Interseções entre o Norte e o Sul são imagens que se constroem no encontro de antigos adesivos de hotéis, comuns por se colecionarem em estampas de malas de viagem e por materializarem aquilo que é um símbolo icónico e mediático da indústria hoteleira mundial. O seu caráter ostensivo e classicista remonta a uma memória por vezes obliterada pela História – muitas vezes ignorada pelos seus beneficiadores –, uma imagem de riqueza e de luxo, fortemente sustentada pelas mãos trabalhadoras de um proletariado mal renumerado e mal acarinhado. O artista propõe, assim, uma série de colagens onde o recorte de dois autocolantes se interceta e se reconfigura e que sugere, para além da inversão da polaridade Norte e Sul originária de cada destino – arrastada para a periferia da composição –, a existência de um espaço branco, vazio. O desencontro das imagens coloca-as assim no seu devido lugar de questionamento e a incógnita da sua dança pressupõe a criação do já mencionado espaço-entre. Recorrendo-se de uma estética vinculadamente concreta, as estruturas visuais das interseções [3] desenham lugares ativamente habitados pelo conteúdo – ou anulamento do mesmo – perante a forma que se expande na superfície do papel, regidos pela mesma lógica anuladora que subverte a ideia de propaganda que se observa, igualmente, na escultura Propagador que, frente ao conjunto de trabalhos, repousa.

Esta estrutura em tubo de aço não tratado trata-se de uma réplica fiel dos objetos de divulgação publicitária típicos da paisagem urbana de São Paulo, cidade onde o artista reside. Ao trazer o objeto para o interior do espaço expositivo, Cidade inverte a sua fiável função, colocando no lugar da placa informativa uma chapa em ferro onde apenas as texturas e patina do material se presenciam. Como num gesto de supressão, a estrutura é agora inutilizada, caindo no obsoletismo do vazio, e a sua função original de propagação materialista é então reconfigurada para uma não-função de auto-propagação do nada – um loop do vazio e da superficialidade – diríamos mesmo, um anúncio à própria matéria da propagação.

A abstração formal e conceptual a partir da apropriação e deslocamento de um objeto do seu espaço originário, desenvolve-se igualmente na escultura que se encosta sozinha no fundo da galeria. Uma vez mais, é a estética concreta no traço do Portão que desperta uma estranha sensação de familiaridade. Com uma escala desconcertante, o seu peso parece arrastar-se quase em queda pelo chão que a sustenta, como se há muito tempo ocupasse um lugar que não lhe pertence e que lhe é desadequado. A imagem é, na verdade, uma reminiscência paulista dos portões das casas na periferia da cidade que, em contraste com os das habitações do centro económico, detém em si aberturas nos intervalos de um desenho geométrico, permitindo a visibilidade entre o interior e o exterior. Retomando a uma questão central da sua obra, o artista resgata um objeto de divisão entre as fronteiras do espaço público e do espaço doméstico que, em última instância, se tornam símbolos de resistência perante a alienação da segregação social.

Finalmente, observamos em Degraus a perceção de um lugar-comum. Inspirados nos degraus em mármore de Estremoz para as habitações sociais do Bairro da Malagueira – desenhado pelo arquiteto português Siza Vieira na década de 90 –, estes lugares simbolizam o hiato espacial entre o interior privado e o exterior público, sendo frequentemente utilizados enquanto repousos de convívio e fraternização entre a população local. Apesar de serem exemplos de extensões arquitetónicas vernaculares em ambos países, Brasil e Portugal, existe uma distinção na forma de reconhecimento desse espaço comunitário. Se em Portugal a confortabilidade de uma partilha parece um movimento assegurado e um direito absolutamente inegável, já no Brasil, particularmente em São Paulo, esse ato pode ser compreendido como um gesto de resistência política, padecendo de um receio instalado na possibilidade de invasão. Talvez sejam, neste sentido, o conjunto escultórico que mais em aberto deixa a problemática abordada por Cidade relativamente à privatização do espaço público.

A vulnerabilização e marginalização do cidadão enquanto sintoma de uma sociedade em constante estado de opressão, reverbera nos objetos sociais uma função que rapidamente é transformada e auto-flagelada. Tal premissa introduz-nos Cidade que, num constante esforço de deslocamento de situações formais, propõe uma cadeia de novas experiências e convivências sociais – seja a nível da inversão da estrutura coletiva em detrimento do bem-estar individual, seja no que diz respeito à inserção da situação urbana no ambiente expositivo. Antes, a distopia do fora e do dentro anula-se na sua própria tentativa de compreensão, restando apenas o espaço que não existe – o entre-o-espaço, o espaço-entre.

Eva Mendes

[1] Van Eyck, Aldo, in Beyond Visibility: About place and occasion, the inbetween realm, right size and labyrinthian clarity. The situationist Times facsimile edition, Ed. Booray, 2012.
[2] Bachelard, Gaston, in A Psicanálise do Fogo, Ed. Litoral, p.7, 1989.
[3] Interseccionalismo foi também um movimento literário português com forte influência na poesia modernista e caracterizado pela junção simultânea de várias realidades.

 

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